Crianças realizam múltiplas tarefas ao mesmo tempo
Pelo computador e pelo celular, as crianças conversam com vários amigos, jogam videogame e ainda discutem com os pais. Foi-se o tempo em que criança bem-criada e educada era aquela que tinha horário para tudo e não misturava as coisas.
Cercadas de aparelhos eletrônicos que dominam desde
cedo, as crianças da era dos estímulos constantes e simultâneos são
capazes de executar três, quatro, cinco atividades ao mesmo tempo – e
prestar pelo menos alguma atenção a todas elas.
Têm até uma designação, dada por especialistas em
nomear coisas que todos sabem o que são, mas não como se chamam: são
crianças multitarefas, e encaram isso com total naturalidade. "Eu tenho
de ficar atenta a tudo. Parece que tenho quatro olhos e quatro ouvidos",
descreve Beatriz Dreger, 10 anos, que costuma ouvir música, conversar
on-line com os amigos, checar mensagens e ainda deixar a televisão
ligada à espera de seus programas preferidos, tudo isso enquanto faz a
lição de casa. E Beatriz é ótima aluna.
Pesquisa realizada em maio pela Turner Internacional
do Brasil, responsável pelo canal pago de televisão Cartoon Network,
confirmou que 73% dos meninos e meninas entre 7 e 15 anos têm o hábito
de combinar um número de tarefas simultâneas que varia de três, para os
menores, a até oito, no começo da adolescência. "A princípio, uma coisa
chama mais atenção do que outra. Mas a partir dos 9 anos a criança já
consegue dividir a atenção de maneira equilibrada", diz a publicitária
Renata Policicio, que coordenou a pesquisa. "Como não querem perder
tempo nem informação, ficam ligadas em tudo e absorvem como
esponjinhas."
Uma explicação para o fenômeno é neurológica: o
cérebro infantil, superestimulado, funciona a mil. "Qualquer teste de
desenvolvimento de inteligência mais antigo concluirá que a criança de
hoje é gênio", afirma o neurologista infantil José Salomão
Schwartzman,70, professor de pós-graduação da Universidade Mackenzie, de
São Paulo. "De fato, ela é mais inteligente, porque tem o cérebro
exposto a uma quantidade crescente de estímulos desde cedo e estabelece
precocemente um número maior de conexões entre neurônios", explica.
Os resultados espantam pais e professores. "Para
estudar, eu precisava de silêncio. Meus filhos Guilherme, de 11 anos, e
Heloísa, de 8, não ligam para isso", diz Rita de Cássia da Silva, 36,
uma das 29 mães que aceitaram o convite dos pesquisadores para anotar
todas as atividades das crianças durante quatro dias. "O momento mais
surpreendente para mim foi quando vi que minha filha falava ao telefone
com um primo sobre um trabalho da escola, conversava pelo MSN – notebook
no colo – com uma prima e ainda estava de olho na televisão", lembra
Rita.
Outra que levou susto foi a gerente de loja
Jacqueline Waiswol, 37, que também fez um diário das atividades do
filho, Thomas, 7. "Um dia ele estava jogando videogame, brincando com um
bonequinho e, com o rabo do olho, assistindo a um seriado na TV",
lembra. "Perto dele, minha filha me dizia aonde precisava ir à tarde.
Thomas, sem parar nada do que estava fazendo, declarou: ‘Eu não vou
junto’." Estranhamente, funciona. "Na avaliação das próprias crianças
pesquisadas, a tecnologia faz com que elas sejam mais rápidas no
pensamento e na hora de escrever", diz Renata Policicio, a coordenadora
da pesquisa.
Há pontos negativos, evidentemente. Um deles é a
crescente dificuldade de relacionamento pessoal para a meninada, que,
quando não está na escola, ocupa boa parte de seu tempo com jogos e
amigos virtuais. "Nada substitui a relação pessoal. É através dela que a
criança aprende a trabalhar em equipe, lidar com as frustrações e ceder
nos momentos adequados", adverte a psicóloga Suzy Camacho, autora do
livro Guia Prático dos Pais.
Consciente das limitações da vida virtual, a gerente
de vendas Angelita Baliú, 42, do Rio de Janeiro, tenta expandir os
horizontes do filho Eric, 10. Ele só tem autorização para ficar uma hora
por dia no computador e uma hora jogando videogame. "Se deixar, passa o
dia todo, mas faço questão de que ele desça para brincar com outras
crianças", diz Angelita. Eric até sobrevive sem eletrônicos, mas
continua a diversificar suas atenções. "Já o peguei lendo um livro
enquanto fazia o dever de matemática e assistia ao noticiário na TV",
conta a mãe. "E ainda comentou uma reportagem."
Com crianças assim, professores comprometidos com
resultados precisam se esfalfar para tornar suas aulas atraentes.
"Apela-se para todos os recursos tecnológicos disponíveis. GPS para
explicar geometria, pesquisa na internet para quase tudo", descreve
Sérgio Boggio, 61, diretor de tecnologia aplicada à educação, do Colégio
Bandeirantes, em São Paulo.
Para crianças agilíssimas no teclado (inclusive com
os polegares, esse apêndice subutilizado que o celular e o videogame
tornaram indispensável), o Instituto GayLussac, de Niterói, oferece
revisões e lição de casa on-line. Giovanna Saffi, de 9 anos, acha
normal. Aluna da 3ª série da escola, ela já foi blogueira do suplemento
infantil de um jornal e se orgulha de ter aprendido sozinha a digitar
com os dez dedos. "Divido o teclado em duas metades e uso o polegar para
as teclas do meio", ensina.
A rapidez e a multiplicidade podem ter certo custo.
"Percebo que as crianças processam rapidamente um número maior de
informações, mas num nível superficial. Ir fundo num assunto é difícil
para elas", diz o professor Boggio. "Isso acontece porque o cérebro
humano dispõe de capacidade limitada e, conseqüentemente, para ter
eficiência máxima, precisa que o foco de atenção seja também limitado",
explica o neurologista Schwartzman. Autor de um livro sobre o transtorno
do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), Schwartzman traça uma
relação, cautelosa como exige um tema de semelhantes dimensões, entre a
propagação da multitarefa no universo infantil e o aumento de crianças
diagnosticadas com o distúrbio. "Uma das causas, com certeza, é o fato
de que se expõe a criança a um número excessivo de estímulos, sob
pressão para que ela seja cada vez mais veloz em várias atividades",
diz.
Para quem tem presshttp://www.universitario.com.br/noticias/n.php?i=5284a em determinar as conseqüências
futuras das atividades simultâneas, a ciência ainda responde em ritmo do
passado. "Vamos ter de esperar uma ou duas gerações para saber se a
multitarefa será predominantemente positiva ou negativa na fase adulta",
acredita Schwartzman.
Por Sandra Brasil.
Ingrid Nascimento Da Silva
curso de pedagogia

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