quarta-feira, 23 de maio de 2012

As Tecnologias Intelectuais e a Razão

A abordagem ecológica da cognição permite que alguns  temas clássicos da filosofia ou antropologia sejam renovados, sobretudo o tema da razão. A razão não seria um atributo essencial e imutável da alma humana, mas sim um efeito ecológico, que repousa sobre o uso de tecnologias intelectuais variáveis no espaço e historicamente datadas.
Uma boa parte daquilo a que chamamos de “racionalidade”, no sentido mais estrito do termo, equivale ao uso de um certo número de tecnologias intelectuais, auxílios à memória, sistemas de codificação gráfica e processos de cálculo que recorrem a dispositivos exteriores ao sistema cognitivo humano. Não existe apenas uma racionalidade, mas sim formas de raciocínio e processos de decisão fortemente ligados ao uso de tecnologias intelectuais, que por sua vez são historicamente variáveis.

As tecnologias intelectuais, ainda que pertençam ao mundo sensível “exterior”, também participam de forma fundamental no processo cognitivo. Os processos intelectuais não envolvem apenas a mente, colocam em jogo coisas e objetos técnicos complexos de função representativa e os automatismos operatórios que os acompanham.

As tecnologias intelectuais desempenham um papel fundamental  nos  processos cognitivos, mesmo nos mais cotidianos; para perceber isto, basta pensar no lugar ocupado pela escrita nas sociedades desenvolvidas contemporâneas. Estas tecnologias estruturam profundamente nosso uso das faculdades de percepção, de manipulação e de imaginação. Construímos automatismos (como o da leitura) que soldam estreitamente os módulos biológicos e as tecnologias intelectuais. O que significa que não há razão pura nem sujeito transcendental invariável.

Por A.A.Brasil

fonte: O futuro do pensamento na era da informática, de Pierri Lévy, tradução Carlos Irineu da Costa - UFSC - engenharia da Gestão do Conhecimento

Nenhum comentário:

Postar um comentário